Garoto de aluguel
O conflito interno de uma mulher diante de suas atitudes é o ingrediente principal de “Garoto de Aluguel“, crônica homônima à música de Zé Ramalho

Em uma daquelas tardes costumeiras, Aline deu uma ideia para o grupo de amigas que estava ali reunido: contratar um garoto de programa para animar as coisas.

— Eu não acredito que você está propondo uma coisa dessas! —assustada, respondeu Regina.

— De onde é que vamos tirar um? — perguntou Débora.

— Mas, um garoto de programa? Para que precisamos de um? — questionou Márcia.

— Calma, meninas, foi só uma sugestão… Respirem um pouco enquanto eu vou ali pegar um pouco mais de bebida para todas. — não demorou muito e, ainda com a garrafa de vodca na mão continuou — Não é nada demais, relaxem! Estava pensando em trazer um stripper para quebrar um pouco a rotina.

Todos os tipos de questionamentos acompanharam Aline nos minutos que sucederam a proposta. Como viu que as amigas não estavam levando a ideia com bons olhos, resolveu apelar:

—“Prestenção”, meninas! Se vocês não querem, tudo bem. Ninguém vai morrer. Eu já devia imaginar que vocês não teriam coragem mesmo. Ficam aí dando discurso de que são independentes e modernas, mas na hora de mostrar quem são continuam sendo as mesmas “Amélias” do passado.

O discurso convenceu Débora e Márcia, mas Regina preferiu ir embora, não quis compactuar da ideia. Achou que chamar um garoto de programa um tanto quanto desmedido.

— Deixa de bobagem, Regina! Só vamos brincar um pouquinho com ele. Fica, vai…

O pedido foi em vão. Ela estava decidida e antes que as amigas fizessem mais chantagem emocional pegou as chaves do carro e foi embora.

Regina só não esperava o que aconteceu quando a noite caiu. Tomada por uma crise de consciência, se arrependeu de não ter ficado na casa de Aline. Logo ela, uma das principais defensoras informais do feminismo.

Em todas as discussões, não importando quem estivesse presente, sua posição em defesa da liberdade de escolha das mulheres era conhecida. Em sua opinião, as mulheres haveriam de ter os mesmos “direitos” que os homens. Não poderiam ficar rotuladas por sua conduta referente aos seus parceiros sexuais.

Sozinha, em casa, Regina teve o seu momento de raiva. Raiva de pregar um discurso e exercer outra prática. Claro que suas amigas não iriam deixar barato aquela amarelada, mas nem era isso que a preocupava, o pior mesmo era o seu conflito interno.

Já que viu que não teria sossego se não tomasse uma providência, decidiu dar uma guinada na situação. Ligou para Aline.

— Amiga…

— Regina, se for para me dar um sermão nem comece! Ele já foi embora… — antecipou Aline.

—Não liguei para reclamar, na verdade pensei melhor e…

— Já sei! — Interrompeu a amiga — Você quer se desculpar por ter amarelado, não é?

— Mais do que isso. Quero o telefone dele.

Aline se surpreendeu, porém não teria porque negar aquele pedido. Cerca de uma hora e meia depois o tal rapaz estava dançando no apartamento da Regina, como se estivesse em uma casa de espetáculos, vestido de policial. Tinha certo trejeito feminino, mas não importava. Para o que ela queria, iria servir.

Depois do show particular, Regina serviu um jantar que nenhum namorado seu teve direito. Agia como se quisesse impressionar o garoto de programa, mas as reações dele não pareciam lá grande coisa. Ao vê-la começar a servir uma taça de espumante, disse que preferia cerveja.

Qualquer pessoa já veria aí um indicativo do que seria o restante da noite, mas Regina parecia querer provar a todo custo sua independência e não seria uma “ogrisse” que estragaria seus planos.

Terminado o jantar foram para o quarto, pagou o rapaz e finalmente a coisa toda aconteceu. Apesar de ficar o tempo todo pensando que o contratado deveria fazer mais programas com homens do que com mulheres, ela conseguiu atingir o êxtase. O sujeito sequer tirou as botas.

Mal Regina terminou de suspirar, ganhou um beijo na testa e um aviso de que o garoto tinha outro compromisso marcado.

— Como assim, você já vai?

— É o padrão. Eu chego, você paga, nós transamos e eu vou embora. — e ainda completou em um inglês macarrônico — Just business, baby.

— Mas eu queria dormir de conchinha!

— Dormir de conchinha só com meu namorado…

— Faz pelo menos uma coisa para mim? Só uma! Depois prometo que te deixo ir embora! — o rapaz acenou positivamente com a cabeça, mesmo fazendo a maior cara de quem comeu e não gostou — Quando você levantou eu vi uma barata saindo do banheiro. Pode matar ela antes de sair?

— De jeito nenhum, morro de nojo de baratas. Você não conhece nenhum homem que possa fazer o serviço?

Regina descobriu nesse dia que todo feminismo tem lá suas vírgulas e algumas reticências.

Garoto de Aluguel

Música e interpretação de Zé Ramalho

Baby! Dê-me seu dinheiro
Que eu quero viver
Dê-me seu relógio
Que eu quero saber
Quanto tempo falta
Para lhe esquecer
Quanto vale um homem
Para amar você…

Minha profissão
É suja e vulgar
Quero um pagamento
Para me deitar
E junto com você
Estrangular meu riso
Dê-me seu amor
Que dele não preciso…

Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oooooooooh!
Baby!
Nossa relação
Acaba-se assim
Como um caramelo
Que chega-se ao fim
Na boca vermelha De uma dama louca
Pague meu dinheiro E vista sua roupa…

Deixe a porta aberta
Quando for saindo
Você vai chorando
E eu fico sorrindo
Conte pr’as amigas
Que tudo foi mal (Tudo foi mal!)
Nada me preocupa De um marginal…


O mundo é um moinhoNem sempre duas pessoas se encontram no mesmo momento de suas vidas. Crônica inspirada em “O mundo é um moinho“, clássico de Cartola.

Desde o primeiro momento que viu Fátima, não fez outra coisa a não ser desejá-la. Pouco importou-se quando soube que ela era noiva de outro. A atração recíproca e imediata tratou de dar fim ao outro romance para dar espaço ao que viveram.

Os amigos tentaram alertá-lo sobre o caráter da moça. Chamaram-no para um bar na Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo, e, no meio da conversa, tocaram no assunto:

— Nilson, pare de ser besta! Se essa mulher está envolvida com outra pessoa e te dando mole, fará o mesmo com você. Quando menos você esperar, te enfiará uma faca pelas costas, igual está fazendo com o noivo. — falou Rogério, amigo de longa data.

— Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar — rebateu Nilson — Além do mais, tenho certeza de que ela realmente gosta de mim. Não é algo passageiro. Sinto que é coisa de verdade! Plena!

— Rapaz, você sempre teve sorte com mulher, vai se meter nessa fria e depois ficará chorando as pitangas. Por que não fica com uma destas que correm atrás de você? — retrucou Paulo, outro amigo dos mais chegados.

— Eu sei o que eu quero! Já está na hora de eu sossegar mesmo. Vivo como bicho solto há muito tempo, sem dar valor para rabo de saia nenhum e vocês são testemunhas disso. Acontece que encontrei a minha paz! — fez uma pausa para tomar sua cerveja e continuou — Não estou entendendo o que vocês querem, mas é o seguinte: não vou mudar de ideia!

Vendo que o amigo estava irredutível e sabendo como ele era quando enfiava uma coisa na cabeça, acharam melhor concordar para não dar problema. Aos olhos dos amigos, Nilson estava cego.

Os primeiros meses foram maravilhosos, muita alegria e parceria. Finalmente seu barco parecia realmente ter encontrado o porto seguro que tanto quis.

Havia alguns desentendimentos sim, mas nada de muito grave. Assim que eles acabavam, o sexo começava. E não era qualquer sexo, tinha a paixão que só se vê nas noites de primeiro amor.

Em um determinado dia, disse as palavras que qualquer mulher gostaria de ouvir:

— Fátima, eu estive pensando bastante e acho que a gente poderia pensar em se casar. Uma coisa simples, para a família, mas de muito bom gosto. Quero fazer tudo certo contigo!

— Ah, Nilson! Deixa passar mais um pouco… Temos tempo. Não vamos colocar o carro na frente dos bois!

O rapaz ficou contrariado com a resposta e encerrou o assunto. Mas sentiu que havia algo errado. “Será esse o meu castigo por todos esses anos de farra? Ter uma mulher que não quer nada sério comigo?”, pensou.

Passados alguns meses, tocou novamente na história do casamento. Dessa vez não ouviu que não era o momento, mas recebeu uma lista interminável de convidados, o que era totalmente contrário aquilo que pensava. Como estava desconfiado das intenções de Fátima, concordou para ver no que daria.

Dias depois, como esperado, a noiva colocou outra pauta em discussão: o local onde morariam. Entre outras palavras, ele teria que se mudar para onde ela queria, o que gerou mais um desentendimento entre o casal.

Nilson então notou que, cada vez que a relação começava a se solidificar ou fazer qualquer menção disso, Fátima arrumava alguma encrenca, algo para desestabilizar a relação. Inúmeras situações similares aconteceram. Resolveu abrir o jogo e ter uma conversa franca para que o rumo da ruptura mudasse. Em sua visão, o que faltava a noiva era se dar conta do que estava fazendo.

O resultado foi desastroso, Fátima ora o culpava por não ter paciência com ela, ora dizia que suas atitudes eram normais e que Nilson só poderia estar implicando.

Dali em diante, a qualidade da relação se jogou do penhasco. A moça não era apenas imatura demais para se empenhar em uma relação, também não tinha a grandeza necessária para aceitar os fatos.

Como teve a sua verdade exposta, bastava se sentir acuada para procurar no companheiro algum defeito para poder confrontá-lo. Algo que servisse como justificativa para seu comportamento ou que mostrasse que ela não seria a única a ter problemas.

Após constatar que não conseguia fazê-la entender o que estava acontecendo, Nilson decidiu se distanciar. Mesmo assim continuo aguardando-a, como um cão que espera o dono voltar. Fátima protestou muito para que o distanciamento não acontecesse, mas ele foi firme e manteve a decisão.

Algumas semanas depois resolveram se encontrar. A expectativa dele era a de um recomeço. Talvez o tempo que estiveram separados tivesse servido para que ela entendesse o que significa ter uma relação completa. Mas, o jantar não foi bem o que ele esperava.

— Você tem certeza de que e isso que quer? — perguntou para Fátima, com as mãos cobrindo o rosto e os olhos vermelhos.

— Tenho, Nilson. Acho que está na hora de você procurar alguém que atenda as suas expectativas. Eu não consigo. Tentei de todas as formas, mas o que você quer é complicado demais.

— Melhor eu pegar minhas coisas então…

— Elas já estão encaixotadas. Prefiro que pegue em outro momento, não quero passar pelo constrangimento de ter ver carregar as caixas.

— Mas…

— Não temos mais nada para conversar. — disse Fátima — Garçom, traga a conta, por favor.

Nilson desmoronou, mas se conteve para não fazer uma cena em público. O que o segurou foi a certeza de ter tentado, ter feito tudo o que estava em suas mãos para segurar aquele amor.

Vendo que seus esforços não fariam mais sentido, quando chegou em casa, escreveu uma carta para deixar registrado o que estava acontecendo a fim de lembrá-lo de que deveria manter distância daquela mulher. Naquela noite, Nilson matou Fátima. Não do jeito que todos morremos. Apenas para ele.

O mundo é um moinho

Composição e voz de Cartola

Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés